Os Bons Cães

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OS BONS CÃES

Ao Senhor Joseph Stevens

Eu jamais me envergonhei, mesmo diante dos jovens escritores de meu século, de minha admiração por Buffon; mas hoje não é a alma desse pintor da natureza pomposa que eu chamarei em minha ajuda. Não.
Bem mais convicto, me dirigirei a Sterne e lhe direi: "Desça do céu ou suba até mim dos Campos Elíseos para me inspirar, em favor dos bons cães, dos pobres cães, cânticos dignos de ti, sentimental farsante incomparável! Volte montado nesse famoso asno que te acompanha sempre na memória da posterioridade e, sobretudo, que este asno que sempre te acompanha não esqueça de levar pendurado entre seus lábios seu imortal bolinho de amêndoas.
Abaixo a musa acadêmica! Nada tenho a fazer com essa velha pretensiosa. Invoco a musa familiar, a citadina, a viva, para que ela me ajude a cantar os bons cães, os pobres cães, os cães emporcalhados, aqueles de quem todos se afastam como pestilentos e pulguentos, à exceção do pobre aos quais estão associados e do poeta que os olha com olhar fraterno.
Fora o cão bonitinho, esse gordinho quadrúpede, dinamarquês, rei-carlos, carlino ou tendilhão, tão encantado dele mesmo que se joga indiscretamente nas pernas ou sobre os joelhos do visitante, como se tivesse a certeza de agradar; turbulento como uma criança, tolo como uma cortesã, às vezes rabugento e insolente como uma serviçal. Fora sobretudo com essas serpentes de quatro patas, arrepiadas e ociosas, que se chamam galgos, que não têm nem mesmo, dentro do seu focinho pontudo, faro suficiente para seguir a pista de um amigo, nem, em sua cabeça achatada, um mínimo de inteligência para jogar dominó!
Para o nicho, todos esses fatigantes parasitas!
Que eles voltem ao seu nicho sedoso e almofadado. Eu canto o cão sem casa, o cão emporcalhado, o cão pobre, o cão sem domicílio, o cão andarilho, o cão saltimbanco, o cão cujo instinto é maravilhosamente fustigado pela necessidade, essa boa mãe, essa verdadeira protetora das inteligências!
Eu canto os cães calamitosos, seja os que erram solitários nas ravinas sinuosas das imensas cidades, sejam aqueles que já disseram ao homem abandonado, com seus olhos espirituais a picas: "Leve-me contigo, e de nossas duas misérias faremos, talvez, uma espécie de felicidade."
"Aonde vão esses cães?", dizia antigamente Nestor Roqueplan, em um imortal folhetim que ele sem dúvida já esqueceu e do qual apenas eu e Sainte-Beuve, talvez, nos recordemos ainda hoje.
"Aonde vão os cães?", perguntam vocês, homens pouco atentos. Eles vão a seus negócios.
Encontros de negócios, encontros de amor. Através da bruma, através da neve, através da lama, sob a canícula mordente, sob a chuva torrencial, eles vão, eles vêm, eles trotam, eles passam sob as viaturas, excitados pelas pulgas, a paixão, a necessidade ou o dever. Como nós, eles se levantam de manhã cedo, procuram suas vidas ou correm para seus prazeres.
Há os que dormem numa ruína do subúrbio e que vêm cada dia, , a hora fixa, reclamar a esmola à porta de uma cozinha do Palais - Royal; outros que vêm, em grupos, de uma distância de mais de cinco léguas para partilhar a refeição que lhes preparou a caridade de certas virgens sexagenárias, cujos corações desocupados se dão aos animais, porque os homens imbecis não os querem mais.
Outros que, como os negros fugitivos, enlouquecidos de amor, deixam, certos dias, seu bairro para virem à cidade, dar saltos durante uma hora ao redor de uma bonita cadela, um pouco negligente em seu toalete, mas orgulhosa e reconhecida.
E eles são muito precisos, sem caderninho de notas, e sem carteiras.
Vocês conhecem a preguiçosa Bélgica, e já admiraram, como eu, todos esses cães vigorosos, atrelados à carroça do açougueiro, do leiteiro ou do padeiro e que testemunham por seus latidos triunfantes o prazer orgulhoso que experimentam de rivalizar com os cavalos?
Eis aqui dois que pertencem a uma ordem mais civilizada! Permita-me introduzi-lo no quarto do saltimbanco ausente! Um leito, de madeira pintada, sem cortinas, cobertas que se arrastam pelo chão contaminadas de percevejos, duas cadeiras de palha, um fogareiro de ferro fundido e um ou dois instrumentos musicais quebrados. Oh! triste mobiliário! Mas olhem, eu ´peço, essas duas personagens inteligentes, vestidas por sua vez com roupas esfarrapadas e suntuosas, penteadas como trovadores ou militares, que vigiam, com cuidado de feiticeiros, a obra sem nome que está sendo esquentada no fogareiro aceso e no centro da qual uma comprida colher se ergue plantada como um desses mastros aéreos que anunciam que a alvenaria está acabada.
Não é, então, justo que estes tão zelosos artistas só viagem depois de forrar o estômago com uma sopa possante e sólida? E vocês não perdoariam um pouco de sensualidade a esses pobres diabos que têm de enfrentar todos os dias a indiferença do público e as injustiças de um diretor que tira para ele a maior parte, engolindo sozinho mais sopa do que quatro atores?
Quantas vezes já contemplei, sorridente e enternecido, todos esses filósofos de quatro patas, escravos complacentes, submissos ou devotados, que o dicionário republicano poderia também qualificar de oficiosos, se a república ocupada demais com a felicidade dos homens tivesse tempo de poupar a honra dos cães.
E quantas vezes pensei que haveria, talvez, em qualquer parte (quem sabe?) para recompensar tanta coragem, tanta paciência, tanto trabalho, um paraíso especial para os bons cães, os pobres cães, os cães emporcalhados e desolados. Swedenborg afirma bem que há um para os turcos e um para os holandeses.
Os pastores de Virgílio e de Teocrito esperavam como prêmio de seus cânticos alternados um bom queijo, uma flauta do melhor fabricante ou uma cabra com as mamas inchadas. O poeta que cantou os pobres cães recebeu por recompensa um belo colete de uma cor ao mesmo tempo rica e desbotada que faz pensar nos sóis de outono, na beleza das mulheres maduras e nos verões de São Martinho.
Nenhum dos que estiveram presentes na taberna da rua Villa Hermosa esquecerá com que petulância o pintor se despojou de seu colete em favor do poeta, por ter tão bem compreendido que era bom e honesto cantar os pobres cães.
Assim como um magnífico tirano italiano, dos velhos tempos, oferecia ao divino Aretino uma adaga enriquecida de pedrarias ou um manto da corte, em troca de um precioso soneto ou de um curioso poema satírico.
E todas as vezes que o poeta veste o colete do pintor é levado a pensar nos bons cães, nos cães filósofos, nos verões de São Martinho e na beleza das mulheres muito maduras.

Espanquemos os Pobres!

XLIX

ESPANQUEMOS OS POBRES!

Durante quinze dias confinei-me em meu quarto e me cerquei de livros que estavam na moda naqueles tempos (há dezesseis ou dezessete anos); quero falar de livros em que se trata da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos em vinte e quatro horas. Tinha eu digerido – engolido, quero dizer – todas as elucubrações de todos os empresários da felicidade pública – dos que aconselham a todos os pobres a se fazerem escravos e dos que persuadiam que eles são reis destronados. Ninguém acharia surpreendente que eu entrasse então em um estado de espírito vizinho da vertigem ou da estupidez.
Pareceu-me, somente, que eu sentisse, confinado, no fundo do meu intelecto, o germe obscuro de uma idéia superior a todas as fórmulas de curandeiras que eu, recentemente, vira, folheando no dicionário. Mas isso só era a idéia de uma idéia, algo de infinitamente vago.
E saí com uma grande sede. Porque o gosto apaixonado por más leituras engendra uma necessidade proporcional de grandes ares e de muitas bebidas refrescantes.
Quando ia entrar num bar, um mendigo estendeu-me o chapéu com um desses inesquecíveis olhares que derrubariam tronos, se é que o espírito removesse a matéria e se o olho de um hipnotizador fizesse as uvas amadurecerem.
Ouvi, ao mesmo tempo, uma voz que me cochichava ao ouvido, uma voz que eu me reconheci bem; era a voz de um bom Anjo ou um bom Demônio, que me acompanha por todos os lugares. Se Sócrates tinha seu bom Demônio, por que eu não havia de ter o meu bom Anjo, e por que não teria eu a honra, como Sócrates, de obter um brevê de loucura, assinado pelo sutil Lélut e pelo bem informado Baillarger?
Existe essa diferença entre o Demônio de Sócrates e o meu, pois o de Sócrates só se manifestava a ele para proibir, advertir, impedir, e que o meu dignava-se a aconselhar, sugerir, persuadir; o meu é um grande afirmador, o meu é um Demônio de ação, um Demônio de combate.
Ora, sua voz cochichava isso: “Quem for igual ao outro que o prove e só é digno de liberdade quem a sabe conquistar.”
Imediatamente saltei sobre meu mendigo. Com um único soco fechei-lhe um olho, que, em um segundo, tornou-se inchado como uma bola. Quebrei uma unha ao partir-lhe dois dentes, e como eu não me sentisse bastante forte, tendo nascido de compleição delicada e tivesse pouca prática de boxe, para desancar aquele velho, peguei-o com uma das mãos pela gola de seu casaco e com a outra lhe agarrei a garganta e me pus a sacudi-lo, vigorosamente, cabeça contra a parede. Devo confessar que já havia previamente inspecionado os arredores com uma olhada e havia verificado que naquele subúrbio deserto eu me achava, por algum tempo, fora do alcance de qualquer policial.
Tendo, em seguida, com um pontapé, dado em suas costas, bastante enérgico para lhe quebrar as omoplatas, botei por terra aquele sexagenário enfraquecido; peguei, então, um grosso galho de árvore, que estava jogado no chão, e bati nele com a energia obstinada dos cozinheiros que querem amolecer um bife.
De repetente – ó milagre! Ó alegria do filósofo que verifica a excelência de sua teoria – vi esta antiga carcaça se virar, se levantar com uma energia que eu jamais suspeitaria que houvesse numa máquina de tal modo danificada, e, com um olhar de raiva que me pareceu de bom augúrio, o malandro decrépito jogou-se sobre mim, socou-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes e, com o mesmo galho de árvore, bateu-me fortemente. Pela minha enérgica medicação, eu lhe havia restituído o orgulho e a vida.
Então, eu lhe fiz sinais enérgicos para que compreendesse que eu considerava nossa discussão terminada e, levantando-me com a satisfação de um sofista de Pórtico, lhe disse: “Meu senhor, o senhor é meu igual! Queira dar-me a honra de aceitar que eu divida minha bolsa consigo, e lembre-se: se você é realmente filantropo, que é preciso aplicar, em todos os seus confrades, quando eles lhe pedirem esmolas, a mesma teoria que eu tive o sofrimento de experimentar sobre suas costas.”
Ele me jurou que havia compreendido a minha teoria e que obedeceria aos meus conselhos.

Any Where Out Of The World

XLVIII

ANY WHERE OUT OF THE WORLD
(Em qualquer lugar fora do mundo)

Esta vida é um hospital onde cada doente está possuído pelo desejo de mudar de leito.Este gostaria de sofrer em frente a um aparelho de calefação, aquele outro crê que se curaria em frente à uma janela.
Parece-me que estarei sempre bem lá onde não estou, e essa questão de mudança é um assunto que discuto sem cessar com minha alma.
“Diga-me, minha alma, pobre alma resfriada, que pensarias de morar em Lisboa? Lá deve fazer calor e tu te regozijarias como um lagarto. Essa cidade fica à beira-mar, diz-se que foi construída com mármore e que o povo tem um tal ódio por vegetais que arranca todas as árvores. Eis uma paisagem segundo teu gosto; uma paisagem com a luz e o mineral, e o líquido para refleti-los!”
Minha alma não responde.
“Posto que amas tanto o repouso com o espetáculo do movimento, queres vir habitar na Holanda, essa terra beatificante? Talvez se divertirás nesse lugar cujas imagens freqüentemente admiraste nos museus. Que pensarias tu de Rotterdam, tu que amas as florestas de mastros e de navios amarrados ao pé das casas?”
Minha alma permanece muda.
“Batávia sorriria, talvez mais para ti. Nós encontraríamos lá, então, o espírito da Europa casado com a beleza tropical.”
Nenhuma palavra. Estaria morta a minha alma?
“Chegaste a este ponto de entorpecimento que não te alegras senão com teu próprio malSe é assim, fujamos, então, para os países que são as analogias da morte. Já sei o que devemos fazer, pobre alma! Nós faremos nossas malas para Tornéo. Iremos mais longe ainda, ao extremo fim do Báltico, ainda mais longe da vida, se é possível; nos instalaremos no pólo. Lá o sol não roça senão obliquamente a terra, e as lentes alternativas da luz e da noite suprimem a variedade e aumentam a monotonia, essa metade do nada. Lá nós poderemos tomar longos banhos de trevas, enquanto que para nos divertir as auroras boreais nos enviarão, de vez em quando, seus fachos róseos, como reflexos de fogos de artifício do inferno!”
Enfim minha alma explodiu e sabiamente gritou para mim:
“Não importa onde! Não importa onde! desde que seja fora desse mundo!”

A Senhorita Bisturi

XLVII

A SENHORITA BISTURI

Quando eu chegava ao fim daquele bairro, sob os clarões do gás, senti um braço que deslizava, docemente, sob o meu e ouvi uma voz que me dizia ao ouvido: “O senhor é médico?”
Olhei: era uma moça alta, robusta, de olhos grandes, ligeiramente pintada, os cabelos esvoaçantes com as bridas de seu gorro.
“Não, não sou médico. Deixe-me ir.” “Oh! Sim, o senhor é médico. Eu o conheço bem. Venha comigo. O senhor ficara satisfeito comigo, vamos. Venha.” “Sem dúvida eu irei vê-la, mais tarde, depois do médico, que diabo!...” “Ah! Ah!”, fez ela, sempre pendurada no meu braço e rindo alto, o senhor é um médico galhofeiro. Conheci muitos do seu tipo.”
Amo, apaixonadamente, o mistério, porque tenho sempre a esperança de elucidá-lo. Deixei-me, então, levar por aquela companhia, ou melhor, por aquele enigma inesperado.
Omito a descrição de um casebre; pode-se achá-la em vários poetas franceses bem conhecidos. Apenas, detalhe não percebido por Régnier, dois ou três retratos de doutores célebres estavam pendurados nas paredes.
Como fui acarinhado! Grande lareira, vinho quente, charutos; e oferecendo-me tais coisas boas e acendendo, ela mesma, um charuto, a cômica criatura me disse: “Faça como se estivesse em casa, relaxe. Isso o lembrará do hospital e do bom tempo de juventude. Ah! Isso. E onde ganhou o senhor cabelos brancos? O senhor não era assim; não faz muito tempo que era interno do L... Lembro-me que era o senhor que o ajudava nas operações mais graves. Era um homem que gostava de cortar, talhar, romper. Era o senhor que lhe passava os instrumentos, os fios, as compressas. E, ao fim da operação ele dizia orgulhosamente, olhando o relógio: ‘Cinco minutos, senhores!’ Oh! Eu vou a todos os lugares. Conheço bem esses senhores.”
Alguns instantes mais tarde, tratando-me com intimidade, ela retornava sua cantilena. “Você é médico, não é, meu gato?”
Esse ininteligível refrão fez-me saltar sobre os calcanhares: “Não!”, gritei furioso.
“Cirurgião, então?”
“Não! Não! A não ser que seja para te cortar a cabeça! S... s... c... de s... m...!”
“Espera”, respondeu ela, “você vai ver.”
E tirou do armário um maço de papéis que não era outra coisa senãoo uma coleção de retratos de médicos ilustres daquela época, litografados por Maurin, que poderiam ser vistos expostos durante muitos anos no Cais Voltaire, em Paris.
“Aí estão. Você reconhece esse aqui?”
“Sim, é o X, o nome está embaixo, mas eu o conheci pessoalmente.”
“Eu bem sabia! Veja! Eis o Z, o que dizia em seu curso falando de X: ‘Este monstro que traz no próprio rosto o negrume de sua alma. ‘Tudo isso só porque o outro não estivesse de acordo com ele em certo caso. Como a gente ria disso na escola, naquele tempo! Lembras? Olha, aqui está K, esse que denunciou ao governo os insurgentes a quem tratava no seu hospital. Era tempo das rebeliões. Como é possível que um tão belo homem tenha um coração tão pequeno? Veja agora W, um famoso médico inglês, eu o agarrei em sua viagem a Paris. Tinha o ar de uma mocinha, não é?”
E como eu tocasse num pacote amarrado com barbante, colocado, também, sobre uma mesinha: “Espera um pouco.” Disse ela, “esses aqui são os internos e o pacote ali são os externos.”
E ela abriu, espalhando sobre a mesa uma massa de imagens fotográficas representando fisionomias bem mais jovens.
“Quando nos revermos me darás teu retrato, não é, querido?”
“Mas,” disse-lhe eu, seguindo também minha idéia fixa, “por que me crês médico?”
“É que és tão gentil e tão bom para as mulheres.”
“Lógica singular”, disse eu para mim mesmo.
“Oh! Eu não me engano nunca. Conheci um bom número. Amo tanto esses senhores que, se bem que eu não esteja doente, vou algumas vezes vê-los, somente para vê-los. Alguns me dizem friamente: ‘Você não está doente.’ Mas há outros que me compreendem porque lhes faço gracinhas.
“E quando eles não te compreendem...?”
“Ora essa! Como eu os ocupei inutilmente, deixo-lhes uma nota de 10 francos sobre a lareira. São tão bons e tão doces estes homens. Descobri na Santa Casa um pequeno interno que é belo como um anho, e bem-educado. E como trabalha o pobre menino! Seus colegas disseram-me que ele não tem um tostão, porque seus pais são pobres e nada lhe podem dar. Isso me deu confiança. Além disso eu sou uma bela mulher ainda, conquanto não muito jovem. Eu lhe disse: “Vem me ver, vem me ver frequentemente. E comigo não te constranjas. Não preciso de dinheiro.” Mas tu compreendes que eu lhe fiz entender isso por várias maneiras, não falei tudo cruamente; tinha um enorme medo de humilhar esse querido menino! Bem crerias tu que eu tenha um engraçado desejo que não ouso dizer a ele? Gostaria que ele viesse me ver com sua maleta e seu avental, mesmo um pouco sujo de sangue.”
E ela disse isso com ar de grande candura, como um homem sensível diria a uma atriz que ele amasse: “Quero vê-la vestida com a roupa que você usava no famoso papel que você criou.”
E, obstinadamente, continuei: “Podes lembrar da época e da ocasião quando nasceu em ti essa paixão tão especial?”
Dificilmente me fiz compreender; enfim consegui. Mas então, ela me respondeu com um ar muito triste e mesmo tanto quando me lembre, desviando os olhos: “Eu não sei... não me lembro...”
Que bizarrices não se encontram em uma grande cidade quando se sabe passear e olhar? A vida é cheia de monstros inocentes. Senhor meu Deus! Vós, o Criador, vós, o Mestre, vós que fizestes a Lei e a Liberdade; vós o soberano que deixais fazer, vós o juiz que perdoais, vós que sois plenos de motivos e de causas e que talvez tenhais posto em meu espírito o gosto pelo horror para converter meu coração como a cura na ponta de um bisturi, Senhor, tende piedade, tentede piedade dos loucos e das loucas. Ó Criador! Podem existir monstros aos olhos Daquele que é o único que sabe por que eles existem, como eles existem e se fizeram e como eles poderiam não ter sido feitos?

A Perda da Auréola

XLVI

A PERDA DA AURÉOLA

“Olá! O senhor por aqui, meu caro? O senhor nestes maus lugares! O senhor bebedor de quintessências e comedor de ambrosia! Na verdade, tenho razão para me surpreender!”
‘Meu caro, você conhece meu terror de cavalos e viaturas. Agora mesmo, quando atravessava a avenida, muito apressado, saltando pelas poças de lama, no meio desse caos móvel, onde a morte chega a galope de todos os lados ao mesmo tempo, minha auréola, em um brusco movimento, escorregou de minha cabeça e caiu na lama do macadame. Não tive coragem de apanhá-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que me arriscar a quebrar uns ossos. E depois, disse para mim mesmo, há males que vêm para o bem. Posso, agora. passear incógnito, cometer ações reprováveis e abandonar-me à crapulagem como um simples mortal, E eis-me aqui, igual a você, como você vê.”
“O senhor deveria, ao menos, colocar um anúncio dessa auréola ou reclamá-la na delegacia caso alguém a achasse.”
“Não! Não quero! Sinto-me bem assim. Você, só você me reconheceu. Além disso a dignidade me entedia. E penso com alegria que algum mau poeta a apanhara e a meterá na cabeça descaradamente. Fazer alguém feliz, que alegria! e sobretudo uma pessoa feliz que me fará rir. Pense em X ou em Z. Hein? Como será engraçado.”

O Tiro e o Cemitério

XLV

O TIRO E O CEMITÉRIO

À vista do cemitério, Bar, — “Singular letreiro”, disse consigo mesmo nosso caminhante, “mas bem-feito para dar sede! Com certeza o dono deste cabaré sabe apreciar Horácio e os poetas discípulos de Epicuro. Talvez mesmo conheça o profundo refinamento dos antigos egípcios, para quem não havia um bom festim sem esqueletos ou sem qualquer emblema sobre a brevidade da vida.”
E ele entrou, bebeu um copo de cerveja diante dos túmulos e fumou lentamente um charuto. Depois, a fantasia levou-o a descer a esse cemitério, cuja grama era alta e convidativa e onde reinava um tão rico sol.
Efetivamente, a luz e o calor eram terríveis e podia-se dizer que o sol ébrio, deitado, espojava-se sobre o tapete de flores magníficas engordadas pela destruição. Um imenso rumor de vida enchia o ar — a vida dos infinitamente pequenos —, cortado a intervalos regulares pela crepitação dos tiros de um estande vizinho que estalavam como a explosão de rolhas de champanhe no murmúrio de uma sinfonia em surdina.
Então, sob o sol que lhe esquentava o cérebro, e numa atmosfera de ardentes perfumes da Morte, ele ouviu uma voz cochichar sob a sepultura onde ele estava sentado. E essa voz dizia: “Malditos sejam seus alvos e suas carabinas, turbulentos seres vivos que se preocupam tão pouco com os defuntos e seu divino repouso. Malditas sejam suas ambições, malditos seus cálculos, mortais impacientes, que vêm estudar a arte de matar perto do santuário da Morte! Se vocês soubessem como o prêmio é fácil de ganhar, como o alvo é fácil de alcançar e quanto tudo é nada, exceto a Morte, vocês não se cansariam tanto, laboriosos viventes, e incomodariam menos vezes o sono daqueles que, há muito tempo, acertaram o Alvo, o único verdadeiro Alvo da detestável vida.”

A Sopa e As Nuvens

XLIV

A SOPA E AS NUVENS


Minha pequena louca bem-amada servia-me o jantar enquanto eu, pela janela aberta da sala, contemplava as arquiteturas moventes que Deus faz com os vapores, as maravilhosas construções do impalpável. E eu me dizia através da contemplação:
“Todas estas fantasmagorias são quase tão belas quanto os olhos da minha bela bem-amada, a louquinha monstruosa de olhos verdes.”
Subitamente senti um violento soco nas costas e ouvi uma voz rouca e charmosa, uma voz histérica, como que enrouquecida pela aguardente, a voz de minha bem-amada que dizia:
“Vamos logo, tome sua sopa, seu bobalhão, negociante de nuvens.”

O Galante Atirador

XLIII


O GALANTE ATIRADOR


Ele fez parar a viatura que atravessava o bosque na vizinhança de um estande de tiro ao alvo, dizendo que lhe agradava a idéia de atirar algumas balas para matar o Tempo. Matar essa monstruosidade não é a ocupação mais ordinária e a mais legítima de todos nós? E ofereceu, galantemente, a mão à sua querida, deliciosa e execrável mulher, a essa misteriosa
lher à qual ele devia tanto em prazeres, tanto em dores e, também, talvez, uma grande parte de seu gênio.
Muitas balas bateram longe do alvo proposto; uma delas afundou-se no teto; e, como a charmosa criatura risse loucamente, caçoando da inabilidade do esposo, ele virou-se bruscamente para ela e lhe disse: “Observe aquela boneca, lá, à direita, que tem o nariz arrebitado e as feições tão altivas. Muito bem, meu caro anjo, eu imagino que seja você” E fechou os olhos e puxou o gatilho. A boneca foi, literalmente, decapitada.
Então, inclinando-se sobre sua querida, sua deliciosa, sua execrável mulher, sua inevitável e imperdoável Musa, e beijando-lhe, respeitosamente, a mão, acrescentou: “Ah! meu querido anjo, como lhe agradeço por minha pontaria.”

Retratos de Amantes

XLII

RETRATOS DE AMANTES

Em um reservado de homens, quer dizer, uma sala de fumar, contíguo a um elegante cassino, quatro homens fumavam e bebiam. Eles não eram, precisamente nem velhos nem moços, nem belos nem feios, mas, velhos ou moços, mostravam certa distinção, não reconhecível nos veteranos do prazer, esse indescritível não sei quê, essa tristeza fria, zombeteira, que dizia claramente: “Nós temos vivido muito e procuramos o que podemos amar e estimar.”
Um deles conduziu a conversa para o assunto mulheres, Teria sido mais filosófico não falar de nada; mas há gente de espírito que, depois de beber, não despreza conversações banais. Escuta-se, então, aquele que fala, como se ouvisse uma música de dança.
“Todos os homens”, dizia ele, “tiveram sua idade de Querubim: é a época onde, na falta de ninfas, beija-se, sem repugnância o tronco dos carvalhos. É o primeiro grau do amor. No segundo grau, começa-se a escolher. Poder deliberar é já uma decadência. É, então, que se procurai decididamente, a beleza. Eu, meus senhores, considero uma glória ter chegado, há muito tempo, à época climatérica do terceiro grau, onde a própria beleza não é mais suficiente, se não é ajudada pelo perfume, os enfeites, etc. Eu confessaria mesmo que aspiro, às vezes, a uma felicidade desconhecida, a um certo quarto grau que deve marcar a calma absoluta. Mas, durante toda a minha vida, exceto na idade de Querubim, fui mais sensível que qualquer outro à enervante burrice, à irritante mediocridade das mulheres. O que amo, sobretudo nos animais, é sua candura, Julguem, então, quanto devo ter sofrido por causa da minha última amante.
“Era a bastarda de um príncipe. Bela, isso é óbvio; sem isso por que teria eu ficado com ela? Mas ela estragava essa grande qualidade por uma ambição inconveniente e disforme. Era uma mulher que sempre queria ser o homem. ‘Você não é um homem! Ah, se eu fosse homem! De nós dois sou eu o homem!” Tais eram os insuportáveis refrões que safam daquela boca de onde eu não gostaria que saíssem senão canções. A propósito de um livro, de um poema, de uma ópera, sobre a qual eu deixasse escapar minha admiração: ‘Você se acha um perito nisso?’, dizia ela, imediatamente. ‘Você se acha um bom conhecedor do assunto?’, e ela argumentava.
“Um belo dia meteu-se na química, de sorte que entre minha boca e a dela, encontrei, a partir de então, uma verdadeira máscara de vidro. Com tudo isso, muïto pretensiosa. Se, alguma vez, eu a perturbava com um gesto amoroso demais, ela ficava convulsa como uma sensitiva violada...”
“Como isso terminou?”, perguntou um dos outros três. “Nunca o imaginei tão paciente.”
“Deus, respondeu ele, pôs o remédio no mal. Um dia, encontrei essa Minerva, esfomeada de força ideal, em conversa íntima com meu empregado e numa atitude tal que me obrigou a retirar-me discretamente para não os fazer enrubescer. À noite, despedi os dois pagando os salários atrasados.
“De minha parte”, retornou o que havia interrompido, “não tenho do que me queixar, senão de mim mesmo. A felicidade veio habitar comigo e não a reconheci. O destino me tinha, nesses últimos tempos, concedido a alegria de uma mulher que era a mais doce, a mais submissa e a mais devotada das criaturas e sempre pronta! e sem entusiasmo! ‘Eu quero isto, pois que lhe agrada’. Essa era sua resposta habitual. Se você desse cajadadas nesta parede ou neste sofá, conseguiria mais suspiros do que do peito de minha amante, nos movimentos mais esforçados do amor. Depois de um ano de vida em comum, ela me confessou que jamais sentira prazer. Eu me aborreci desse duelo desigual, e essa mulher incomparável casou-se. Tive, mais tarde, a fantasia de revê-la e ela me disse mostrando-me seus belos seis filhos: ‘Pois é, querido amigo! a esposa está, ainda, tão virgem quanto o era sua amante’, Nada mudara naquela pessoa. Às vezes arrependo-me de não ter casado com ela.
Os outros se puseram a rir, e um terceiro disse, por sua vez:
“Senhores, eu conheci alegrias que, talvez, vocês tenham negligenciado. Quero falar do cômico no amor, e de um cômico que não exclui a admiração. Admirei minha última amante mais do que vocês puderam, creio eu, amar ou odiar as suas. E todos a admiravam tanto quanto eu. Quando entrávamos em um restaurante, ao fim de alguns minutos, todos se esqueciam de comer para contemplá-la. Os próprios garçons e a moça do balcão sentiam esse êxtase contagioso a ponto de esquecer seus deveres, Numa palavra, vivi algum tempo junto a esse fenômeno vivo. Ela comia, mastigava, mordia, devorava, engolia, mas com o ar mais leve e despreocupado do mundo. Ela manteve-me, assim, em êxtase um longo tempo. Tinha um modo doce, sonhador, inglês e romântico de dizer:
‘Estou com fome!’ E repetia essas palavras dia e noite mostrando os dentes mais lindos do mundo, com que vocês poderiam comover-se e divertir-se ao mesmo tempo. Poderia ter feito minha fortuna mostrando-a nas feiras como o monstro polifágico. Eu a nutria bem; e entretanto ela me deixou..”
“Por um fornecedor de víveres, sem dúvida?”
“Algo parecido, uma espécie de empregado na intendência que, por um golpe de mágica conhecido somente dele, forneceu, talvez, a essa pobre criança, a ração de vários soldados. É, pelo menos, o que suponho.”
“Eu, disse o quarto, suportei sofrimentos atrozes, pelo oposto do que se reprova, em geral, à fêmea egoísta. Eu os vejo inoportunos, afortunados mortais, a se queixarem das imperfeições de suas amantes!”
Isso foi dito, num tom sério, por um homem de aspecto calmo e repousado, com a fisionomia quase clerical, infelizmente iluminada por olhos de um cinza claro, que parecem dizer: “Eu quero!” ou: “É preciso” ou então: “Nunca perdôo!”
Se, nervosos como eu os conheço: você, G..., covarde e leviano como você é, vocês dois, K... eJ..., se vocês tivessem se juntado a uma certa mulher de meu conhecimento, ou vocês teriam fugido ou estariam mortos. Eu sobrevivi, como vocês vêem. Imaginem uma pessoa incapaz de cometer um erro de sentimento ou de cálculo; imaginem uma serenidade deplorável de caráter; um devotamento sem comédia e sem ênfase, uma doçura sem fraqueza; uma energia sem violência. A história de meu amor parece uma interminável, viagem sobre uma superfície pura e polida como um espelho, vertiginosamente monótona, que refletiria todos os meus sentimentos e meus gestos com a exatidão irônica de minha própria consciência, de sorte que eu não podia permitir-me um gesto ou um sentimento insensato sem perceber, imediatamente, a censura muda de meu inseparável espectro. O amor me parecia uma tutela. Quantas bobagens ela me impediu de fazer e que eu me arrependo de não haver cometido.’ Quantas dívidas paguei, malgrado meu Ela me privava de todos os benefícios que eu pudesse tirar de meus caprichos. Para cúmulo do horror, ela não exigia reconhecimento, passado o perigo. Quantas vezes me sustive de saltar-lhe ao pescoço gritando: “Seja imperfeita, miserável! a fim de que eu possa te amar sem inquietação e sem cólera.” Durante muitos anos eu a admirei, com o coração cheio de ódio. Enfim, não sou eu que estou morto.”
“Ah! disseram os outros, ela então está morta?”
“Sim, isso não podia continuar assim. O amor tornou-se, para mim, um pesadelo opressivo. Vencer ou morrer, como diz a política, tal era a alternativa que o destino me impunha Um dia, em um bosque... à beira de um charco... após um melanc6lico passeio onde seus olhos, os olhos dela, refletiam a doçura do céu e onde meu coração, meu próprio coração, estava crispado como o inferno...
“O quê?”
“Como?”
“O que você quer dizer?”
“Era inevitável, Eu tenho o sentimento de eqüidade para bater, ultrajar, despedir um servidor irrepreensível. Mas era preciso concordar esse sentimento com o horror que esse ser me inspirava; livrar-me desse ser sem lhe faltar como respeito. Que queriam vocês que eu fizesse com ela, pois ela era perfeita?”
Os três outros companheiros olharam para ele com um olhar vago e ligeiramente estupefato, como fingindo não compreender e como confessando, implicitamente, que eles não se sentiam, quanto a eles, capazes de uma ação tão rigorosa, embora suficientemente explicável.
Em seguida, mandaram vir novas garrafas para matar o tempo, que tem a vida dura, e acelerar a vida, que corre tão lentamente.

O Porto

XLI

O PORTO

Um porto é um lugar charmoso para uma alma fatigada das lutas da vida. A amplitude do céu, a arquitetura móvel das nuvens, as colorações mutantes do mar, a cintilação dos faróis são um prisma maravilhosamente próprio para agradar aos olhos sem jamais os cansar. As formas projetadas dos navios, de aparelhagens complicadas, às quais as ondas imprimem oscilações harmoniosas, servem para manter na alma um gosto pelo ritmo e pela beleza. Além disso, sobretudo, há uma espécie de prazer misterioso e aristocrático para todo aquele que não tem mais nem curiosidade, nem ambição, em contemplar, deitado em um terraço ou de cotovelos na balaustrada, todos esses movimentos dos que partem e dos que voltam, dos que ainda tem a força de querer, o desejo de viajar ou de enriquecer.

O Espelho

XL

O ESPELHO.

Um homem pavoroso entra e mira-se no espelho:
“Por que você se olha no espelho já que não se pode ver senão com desgosto?”
O homem pavoroso respondeu: “Meu senhor, segundo os imortais princípios de 89, todos os homens são iguais em seus direitos; portanto possuo o direito de me contemplar, com prazer ou desgosto, isso não diz respeito senão à minha consciência.”
Em nome do bom senso, eu tinha, sem dúvida, razão; mas do ponto de vista da lei, ele não estava errado.

Um Cavalo de Raça

XXXIX

UM CAVALO DE RAÇA

Ela é bem feia. Portanto deliciosa.
O Tempo e o Amor marcaram-na com suas garras e ensinaram-lhe, cruelmente, o que cada minuto, cada beijo tiram de juventude e de frescor.
Ela é, verdadeiramente, feia; ela é formiga, aranha, se você quiser, um esqueleto mesmo, mas também é bebida, magistério, feitiçaria Em suma ela é deliciosa.
O Tempo não pôde romper a harmonia crepitante de seu andar, nem a elegância indestrutível de sua estrutura. O Amor não alterou a suavidade do seu hálito de criança; e o Tempo nada roubou de sua abundante cabeleira de onde exala, em perfumes selvagens, toda a vitalidade endiabrada do Meio-Dia francês: Nimes, Aix, Aries, Avignon, Narbonne, Toulouse, cidades benditas pelo sol, amorosas e charmosas!
O Tempo e o Amor morderam-na em vão, com vontade; eles em nada diminuíram o vago charme, mas eterno, de seu peito juvenil.
Talvez usada, mas não fatigada e sempre heróica, ela faz lembrar esses cavalos de grandes raças, que o olho do verdadeiro perito amador reconhece, mesmo atrelados a uma carroça de aluguel ou a um veículo de carga.
E depois ela é tão doce, tão ardente. Ela ama como se ama no outono; dir-se-ia que a aproximação do inverno acendeu em seu coração um fogo novo, e o servilismo de sua ternura nada tem de fatigante.

Qual É a Verdadeira?

XXXVIII

QUAL É A VERDADEIRA?

Conheci uma certa Benedicta que enchia a atmosfera de ideal, cujos olhos difundiam o desejo de grandeza, de beleza, de glória e de tudo o que fazia crer na imortalidade.
Mas essa moça miraculosa era bela demais para viver muito tempo, tanto que morreu alguns dias depois que eu a conheci, e fui eu mesmo que a enterrei, um dia em que a primavera agitava seu incensório até dentro dos cemitérios. Fui eu quem a enterrou, bem fechada em um caixão de madeira perfumada e incorruptível como os cofres das Índias.
E como meus olhos estavam fixados no lugar onde estava escondido o meu tesouro, vi, subitamente, uma pessoa pequena que singularmente parecia-se com a defunta e que calcava com os pés a terra fresca, com uma violência histérica e bizarra, dizendo às gargalhadas: “Sou eu a verdadeira Benedicta! Sou eu, uma famosa canalha! E para punição de tua loucura e de tua cegueira, hás de me amar tal como sou!”
Mas eu, furioso, respondi: “Não, não, não!” E para acentuar mais minha repulsa, calquei tão violentamente a terra que minha perna afundou até o joelho na sepultura recente e, como um lobo preso em uma armadilha, permaneço ligado, para sempre talvez, à cova do ideal.

Os Favores da Lua

XXXVII

OS FAVORES DA LUA

A Lua, que é o próprio capricho, olhou através da janela enquanto dormias em teu berço e se disse: “Essa criança me agrada.”
E desceu suavemente sua escada de nuvens e passou, sem qualquer barulho, através da vidraça. Depois, esticou-se sobre ti com a macia ternura de uma mãe e depositou suas cores sobre a tua face. Tuas pupilas permaneceram verdes e tuas faces extremamente pálidas. Foi contemplando essa visitante que teus olhos cresceram de modo bizarro; e ela tão ternamente te apertou a garganta para que tu guardasses, para sempre, a vontade de chorar.
Entretanto, na expansão de sua alegria, a Lua encheu o quarto com uma atmosfera fosfórica, como um veneno luminoso. E toda essa luz vivente pensava e dizia: “Sofrerás eternamente a influência de meu beijo: serás bela, à minha maneira. Amarás o que eu amo e os que me amam: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde não estarás, o amante que não conheces as flores monstruosas; os perfumes que fazem delirar; 0s gatos que desfalecem sobre os pianos e gemem como mulheres, com uma voz rouca e doce!”
“E serás amada por meus amantes, cortejada pelos meus cortesãos. Serás a rainha dos homens de olhos verdes, cujas gargantas também apertei em minhas carícias noturnas; daqueles que amam o mar, o mar imenso, tumultuado e verde, a água informe e multiforme, o lugar onde não estão, a mulher que não conhecem, as flores sinistras que parecem incensórios de uma religião desconhecida, os perfumes que perturbam a vontade e os animais selvagens e voluptuosos que são emblemas de sua loucura.”
E é por isso, maldita querida criança mimada que estou, agora deitado a teus pés te procurando em toda a tua pessoa o reflexo da terrível divindade, da fatídica madrinha, da nutriz envenenadora de todos os lunáticos.

O Desejo de Pintar

XXXVI

O DESEJO DE PINTAR

Infeliz, talvez, seja o homem, mas feliz é o artista a quem o desejo dilacera!
Fico louco de vontade de pintar aquela que me aparece tão raramente e foge tão depressa quanto uma coisa bela, inesquecível, atrás do viajante levado pela noite. E já faz tempo que ela desapareceu!
Ela é bela e, mais que bela, é surpreendente. Nela o negror é abundante: e tudo o que ela inspira é noturno e profundo. Seus olhos são duas cavernas onde cintila, vagamente, o mistério, e seu olhar ilumina como um relâmpago; é uma explosão nas trevas.
Eu a Compararia a um sol negro, se se pudesse conceber um astro negro vertendo luz e felicidade. Mas ela faz mais facilmente pensar na lua, que, sem dúvida, a marcou com sua terrível influência; não a lua branca dos idílios, que parece uma fria noiva, mas a lua sinistra e embriagada, suspensa ao fundo duma noite tempestuosa, empurrada pelas nuvens que correm; não a lua pacífica e discreta que visita o sono dos homens puros; mas a lua arrancada do céu, vencida e revoltada, que as Feiticeiras tessalianas constrangem duramente a dançar sobre a relva aterrorizada!
Em sua pequena fronte habitam a tenaz vontade e o amor à presa. Entretanto, sob esse aspecto inquietante, onde as narinas móveis aspiram o desconhecido e o impossível, brilha, com inexprimível graça, o riso de uma grande boca vermelha e branca e deliciosa que faz sonhar o milagre de uma soberba flor que desabrocha em um terreno vulcânico.
Há mulheres que inspiram o desejo de vencê-las e de divertir-se com elas, mas essa dá vontade de morrer lentamente sob seu olhar.

As Janelas

XXXV

AS JANELAS


Quem olha, de fora, através de uma janela aberta, não vê jamais tantas coisas quanto quem olha uma janela fechada. Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante do que uma janela iluminada por uma vela, O que se pode ver à luz do sol é sempre menos interessante do que o que se passa atrás de uma vidraça. Nesse buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.
Além das vagas do teto, percebo uma mulher madura, enrugada mesmo, pobre, sempre inclinada sobre qualquer coisa e que nunca sai de casa. Por seu rosto, por seus vestidos, por seus gestos, por quase nada eu refaço a história dessa mulher, oti antes, sua legenda e, às vezes, conto a mim mesmo, chorando, essa história.
Se tivesse sido um pobre velho, eu, também, refaria a dele, facilmente.
E me deito orgulhoso de ter vivido e sofrido nos outros como se fosse em mim mesmo.
Talvez vocês me dirão “Estás certo de que esta fábula seja verdadeira?” Que importa o que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajuda a viver, a sentir que existo e o que sou?

Já!

XXXIV

JÁ!

Cem vezes já o sol saltou, radioso ou entristecido, dessa cuba imensa do mar cujos bordos apenas deixam-se perceber; cem vezes ele voltou a mergulhar cintilante ou moroso, em seu banho da noite. Há muitos dias nós poderíamos contemplar o outro lado do firmamento e decifrar o alfabeto celeste dos antípodas. E cada um dos passageiros gemeria e grunhiria. Diz-se que a aproximação da terra exasperava seu sofrimento. “Então quando?”, diziam eles, “cessaremos nós de dormir um sono sacudido pelas vagas, perturbado por um vento que ronca mais alto que nós? Quando poderemos digerir em uma poltrona imóvel?”
Havia os que pensavam em seus lares, saudosos de suas esposas ínfiéis e aborrecidas e de sua progenitura barulhenta. Todos estariam tão ensandecidos pela imagem da terra ausente que iriam, creio eu, comer capim com mais entusiasmo do que os animais.
Enfim uma margem foi identificada e nós vimos, ao nos aproximarmos que era uma terra magnífica, deslumbrante.
Parecia que as músicas da vida se desprendiam em um vago murmúrio e que de tais costas, ricas em verduras de todos os tipos, exalava um perfume delicioso de flores e frutas.
Imediatamente cada um ficou alegre, cada um abdicou de seu mau humor. Todas as querelas foram esquecidas e todos os recíprocos defeitos perdoados; os duelos combinados foram apagados da memória e os rancores desapareceram como fumaça.
Só eu estava triste, inconcebivelmente triste. Parecido com um padre a quem se tivesse arrancado sua divindade, não podia, sem uma desoladora amargura, afastar-me desse mar monstruosamente sedutor, desse mar to infinitamente variado em sua assustadora simplicidade e que parecia conter nele e representar por seus jogos e disposições, suas cóleras e seus sorrisos, os humores, as agonias e os êxtases de todas as almas que viveram, vivem ou viverão!
Dizendo adeus a essa incomparável beleza, sentia-me abatido até a morte e, por isso, quando cada um de meus companheiros di2ia: “Enfim”, eu só podia gritar: “Já!”
Entretanto era a terra, a terra com seus ruídos, paixões, comodidades, suas festas. Era uma terra rica e magnífica, cheia de promessas, que nos enviava um misterioso perfume de rosas e de almíscar e de onde as músicas da vida nos chegavam em um amoroso murmúrio.

Embebedai-Vos

XXXIII

EMBEBEDAI-VOS

É preciso estar-se, sempre, bêbado. Tudo está lá, eis a única questão. Para não sentir o fardo do tempo que parte vossos ombros e verga-vos para a terra, é preciso embebedar-vos sem tréguas.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é vossa. Mas embebedai-vos
E se, às vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a grama verde de uma vala, na solidão morna de vosso quarto, vós vos acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que passa, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: “É hora de embebedar-vos! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embebedai-vos, embebedaivos sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude: a escolha é vossa.”

O Tirso*

XXXII

O TIRSO

A Franz Liszt

O que é um tirso? Segundo o senso moral e poético, é um emblema sacerdotal na mão de padres ou freiras que celebram a divindade da qual são intérpretes e servidores. Mas, fisicamente, não é mais do que um bastão, um simples bastão, ramo de lúpulo, tutor de parreira, seco, duro e reto. Em volta desse bastão, de seus caprichosos meandros, caules e flores brincam e divertem-se, os primeiros sinuosos e fugidios, as segundas penduradas como sinos ou taças viradas. E uma glória espantosa brota dessa complexidade de linhas e de cores, tenras ou brilhantes. Não se poderia dizer que a linha curva e a espiral cortejam a linha reta e dançam em torno dela em uma adoração muda? Não se poderia dizer que todas essas corolas delicadas, todos esses cálices, explosões de perfumes e de cores executam um místico pagode em torno do bastão hierático? Entretanto qual é o mortal imprudente que ousará decidir se as flores e os caules foram feitos para o bastão ou se o bastão não é senão um pretexto para mostrar a beleza das parras e das flores? O tirso é a representação de vossa espantosa dualidade, mestre poderoso e venerado, caro Bacante da Beleza misteriosa e apaixonada. Jamais uma ninfa exasperada pelo invencível Baco deixou de sacudir seu tirso sobre as cabeças de suas companheiras endoidecidas com tanta energia e capricho quanto você agita seu gênio sobre os corações de seus irmãos. O bastão é a sua vontade reta, firme e inabalável; s flores são o passeio da fantasia ao redor de sua vontade; o elemento feminino executando, em torno do macho, suas piruetas prestigiosas. Linha reta e linha arabesca, intenção e expressão, rigidez da vontade, sinuosidade do verbo, unidade do fim, variedade dos meios, amálgama todo-poderosa e indivisível do gênio, que analista teria a detestável coragem de vos dividir e de vos separar?
Caro Liszt, através das brumas, além dos rios, acima das cidades onde os pianos cantam vossa glória, onde as impressoras traduzem vossa sabedoria, em qualquer lugar que estejais, no esplendor da cidade eterna ou nas brumas de países sonhadores que Gambrinus consola, improvisando cantos de deleite ou de inefável dor, ou confiando ao papel vossas meditações abstrusas, cantos de Volúpia e de Angústia eternos, filósofo, poeta e artista, eu vos saúdo na imortalidade.
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*tirso
(latim thyrsus, -i, haste das plantas)
s. m.
1. Curto venábulo adornado de pâmpanos e hera e terminado em pinha que as bacantes traziam na mão.
2. Insígnia de Baco.
3. Bot. Disposição das flores em forma de pirâmides ou panícula cónica como no castanheiro, no lilás, etc.
(Dic. Priberam)

As Vocações

XXXI

AS VOCAÇÕES

Em um belo jardim onde os raios de um sol de outono pareciam demorar-se de propósito sob um já esverdeado em que as nuvens de ouro flutuavam como continentes em viagem quatro belos meninos, quatro jovens, sem dúvida cansados de brincar, conversavam entre eles.
Dizia um: “Ontem levaram-me ao teatro. Nos grandes e tristes palácios, ao fundo dos quais via-se o mar e o céu, homens e mulheres sérios e tristes, porém bem mais belos e mais bem vestidos do que os que nós vemos comumente, falam com uma voz cantante. Eles ameaçam-se, suplicam-se, desolam-se e apóiam freqüentemente suas mãos sobre um punhal metido na cintura. Ah! Mas é muito bonito! As mulheres são bem mais belas e bem maiores que essas que vêm nos ver em casa e, embora tivessem os grandes olhos fundos e suas faces irritadas mostrando um ar terrível, não se podia impedir de amá-las. Tinha-se medo, tinha-se vontade de chorar e, entretanto, estava-se contente... E depois, o que é mais singular, surgia uma vontade de estar vestido como eles, de dizer e fazer as mesmas coisas e de falar com a mesma voz...”
Um dos quatro jovens, que há já alguns segundos não mais escutava o discurso de seu camarada e observava com fixidez espantosa não sei qual ponto do céu, disse, de repente: “Olhem, olhem lá... Vêem-no vocês? Ele está sentado sobre aquela pequena nuvem isolada, aquela pequena nuvem de fogo que se move lentamente. Ele, também, dir-se-ia que nos olha.”
“Mas quem?”, perguntaram os outros.
“Deus”, respondeu ele com um acento de completa convicção. “Ah! Ele já está bem longe; daqui a pouco vocês não poderão mais vê-lo. Sem dúvida ele viaja para visitar rodos os países. Atenção, ele vai passar por trás daquela fila de árvores que está quase no horizonte.., e agora desce atrás do sino da Igreja.... Ah! Agora não se vê mais”. E o rapaz ficou virado para o mesmo lado, fixando, sobre a linha que separa a terra do céu, olhos onde brilhava uma inexprimível expressão de êxtase e de lástima.
“Como ele é bobo, esse cara, com seu bom Deus que só ele pode perceber!”, diz então o terceiro cuja pequena estatura era marcada por vivacidade e vitalidade singulares. “Eu vou lhes contar como me aconteceu algo que nunca aconteceu com vocês e que é um pouco mais interessante do que seu teatro e suas nuvens. Há alguns dias meus pais levaram-me em uma viagem com eles e, como no albergue onde paramos não havia leitos para todos nós, decidiram que eu dormiria na mesma cama que minha ama.” Ele puxou então seus camaradas para mais perto e disse, em voz mais baixa:
“Isso resultou em um singular efeito, olhem só, não ir dormir sozinho e estar no leito com sua babá, no escuro. Como eu não conseguia dormir, divertia-me enquanto ela dormia, passando as mãos sobre seus braços, sobre seu pescoço e sobre seus ombros. Ela tem os braços e o pescoço bem maiores que todas as outras mulheres e a pele é tão macia, tão macia, que se poderia dizer de papel de carta ou papel de seda. Tive tanto prazer que continuaria por muito tempo se não tivesse medo de acordá-la, inicialmente, e medo não sei de quê. Em seguida, enfiei minha cabeça em seus cabelos que pendiam sobre seu dorso, espessos como crina de cavalo e eles exalavam um perfume tão bom, asseguro, quanto as flores do jardim, agora. Tentem, quando puderem, fazer o mesmo que eu fiz e vocês verão!”
O jovem autor dessa prodigiosa revelação tinha, enquanto fazia o seu relato, os olhos arregalados por uma espécie de estupefação pelo que havia experimentado então, e os raios do sol poente deslizando através dos anéis ruivos de sua cabeleira arrepiada, iluminavam nela uma espécie de auréola sulfurosa de paixão. É fácil adivinhar que ele não perderia sua vida procurando a Divindade nas nuvens e que ele a encontraria freqüentemente em outros lugares.
Finalmente o quarto disse: “Vocês sabem que eu não me divirto muito em casa, não me levam a espetáculos; meu tutor é muito avaro; Deus não se ocupa de mim, do meu tédio. E eu não tenho uma bela ama para me mimar. Freqüentemente me parecia que meu prazer seria seguir sempre em frente, sem saber para onde, sem que ninguém se inquietasse e ver sempre países novos. Eu nunca estou bem em lugar nenhum e creio sempre que estaria melhor em outro lugar do que no que estou. Bem, eu vi, na última feira da cidade vizinha, três homens que vivem como eu gostaria de viver. Vocês nunca prestaram atenção a isso. Eles eram grandes, quase negros e muito orgulhosos, apesar de andrajosos, com um ar de não precisar de ninguém. Seus grandes olhos sombrios tornavam-se brilhantes quando tocavam músicas; uma música tão surpreendente que dava vontade ora de dançar, ora de chorar, ou de fazer as duas coisas ao mesmo tempo, e que nos faria enlouquecer se as ouvíssemos por muito tempo. Um, ao deslizar o arco sobre o seu violino, parecia narrar uma mágoa, e o outro, percutindo com o pequeno martelo as cordas de seu pianinho pendurado no pescoço por uma correia, tinha o ar de caçoar do lamento do seu vizinho, enquanto o terceiro batia de vez em quando em seus címbalos com extrema violência. Eles estavam tão contentes com eles mesmos que continuavam a tocar sua música de selvagens, mesmo depois que a multidão se dispersou. Por fim recolheram as moedas, colocaram as bagagens sobre os ombros e partiram. Eu, querendo saber onde moravam, segui-os de longe, até a margem da floresta, onde compreendi, somente então, que eles não moravam em lugar nenhum.
Então um disse: “Vamos, é preciso armar a tenda!”
“Por mim não”, respondeu o outro, “está uma bela noite!” O terceiro disse, contando a receita: “Essa gente não sente a música e suas mulheres dançam como ursos. Felizmente dentro de um mês estaremos na Áustria, onde encontraremos gente mais amável.”
“Nós faríamos coisa melhor, talvez, se fôssemos para a Espanha, por causa da estação que vem; fujamos antes das chuvas e não molhemos senão nossas goelas”, disse um dos dois outros.
“Guardei tudo, como podem ver”. Em seguida cada um deles bebeu uma taça de aguardente e adormeceram, de cara virada para as estrelas. Tive vontade de lhes pedir que me levassem com eles e me ensinassem a tocar seus instrumentos, mas não ousei, sem dúvida porque é muito difícil decidir-se a fazer qualquer coisa e, também, porque tive medo de ser apanhado antes de estar fora da França.”
O ar desinteressado dos três outros camaradas me fez pensar que esse jovem já era um incompreendido Olhei-o, atentamente; ele tinha nos olhos e na fronte um não sei quê de precocemente fatal, que afasta geralmente a simpatia, e, não sei por quê, excitou a minha, a ponto de ter, por um instante, a idéia bizarra de que eu poderia ter um irmão, por mim desconhecido.
O sol já tinha se deitado. A noite solene tomara o seu lugar. Os jovens se separaram, cada um indo para seu lado, segundo as circunstâncias e os acasos, amadurecer seu destino, escandalizar os parentes e gravitar no sentido da glória ou da desonra.