O Galante Atirador

XLIII


O GALANTE ATIRADOR


Ele fez parar a viatura que atravessava o bosque na vizinhança de um estande de tiro ao alvo, dizendo que lhe agradava a idéia de atirar algumas balas para matar o Tempo. Matar essa monstruosidade não é a ocupação mais ordinária e a mais legítima de todos nós? E ofereceu, galantemente, a mão à sua querida, deliciosa e execrável mulher, a essa misteriosa
lher à qual ele devia tanto em prazeres, tanto em dores e, também, talvez, uma grande parte de seu gênio.
Muitas balas bateram longe do alvo proposto; uma delas afundou-se no teto; e, como a charmosa criatura risse loucamente, caçoando da inabilidade do esposo, ele virou-se bruscamente para ela e lhe disse: “Observe aquela boneca, lá, à direita, que tem o nariz arrebitado e as feições tão altivas. Muito bem, meu caro anjo, eu imagino que seja você” E fechou os olhos e puxou o gatilho. A boneca foi, literalmente, decapitada.
Então, inclinando-se sobre sua querida, sua deliciosa, sua execrável mulher, sua inevitável e imperdoável Musa, e beijando-lhe, respeitosamente, a mão, acrescentou: “Ah! meu querido anjo, como lhe agradeço por minha pontaria.”

Retratos de Amantes

XLII

RETRATOS DE AMANTES

Em um reservado de homens, quer dizer, uma sala de fumar, contíguo a um elegante cassino, quatro homens fumavam e bebiam. Eles não eram, precisamente nem velhos nem moços, nem belos nem feios, mas, velhos ou moços, mostravam certa distinção, não reconhecível nos veteranos do prazer, esse indescritível não sei quê, essa tristeza fria, zombeteira, que dizia claramente: “Nós temos vivido muito e procuramos o que podemos amar e estimar.”
Um deles conduziu a conversa para o assunto mulheres, Teria sido mais filosófico não falar de nada; mas há gente de espírito que, depois de beber, não despreza conversações banais. Escuta-se, então, aquele que fala, como se ouvisse uma música de dança.
“Todos os homens”, dizia ele, “tiveram sua idade de Querubim: é a época onde, na falta de ninfas, beija-se, sem repugnância o tronco dos carvalhos. É o primeiro grau do amor. No segundo grau, começa-se a escolher. Poder deliberar é já uma decadência. É, então, que se procurai decididamente, a beleza. Eu, meus senhores, considero uma glória ter chegado, há muito tempo, à época climatérica do terceiro grau, onde a própria beleza não é mais suficiente, se não é ajudada pelo perfume, os enfeites, etc. Eu confessaria mesmo que aspiro, às vezes, a uma felicidade desconhecida, a um certo quarto grau que deve marcar a calma absoluta. Mas, durante toda a minha vida, exceto na idade de Querubim, fui mais sensível que qualquer outro à enervante burrice, à irritante mediocridade das mulheres. O que amo, sobretudo nos animais, é sua candura, Julguem, então, quanto devo ter sofrido por causa da minha última amante.
“Era a bastarda de um príncipe. Bela, isso é óbvio; sem isso por que teria eu ficado com ela? Mas ela estragava essa grande qualidade por uma ambição inconveniente e disforme. Era uma mulher que sempre queria ser o homem. ‘Você não é um homem! Ah, se eu fosse homem! De nós dois sou eu o homem!” Tais eram os insuportáveis refrões que safam daquela boca de onde eu não gostaria que saíssem senão canções. A propósito de um livro, de um poema, de uma ópera, sobre a qual eu deixasse escapar minha admiração: ‘Você se acha um perito nisso?’, dizia ela, imediatamente. ‘Você se acha um bom conhecedor do assunto?’, e ela argumentava.
“Um belo dia meteu-se na química, de sorte que entre minha boca e a dela, encontrei, a partir de então, uma verdadeira máscara de vidro. Com tudo isso, muïto pretensiosa. Se, alguma vez, eu a perturbava com um gesto amoroso demais, ela ficava convulsa como uma sensitiva violada...”
“Como isso terminou?”, perguntou um dos outros três. “Nunca o imaginei tão paciente.”
“Deus, respondeu ele, pôs o remédio no mal. Um dia, encontrei essa Minerva, esfomeada de força ideal, em conversa íntima com meu empregado e numa atitude tal que me obrigou a retirar-me discretamente para não os fazer enrubescer. À noite, despedi os dois pagando os salários atrasados.
“De minha parte”, retornou o que havia interrompido, “não tenho do que me queixar, senão de mim mesmo. A felicidade veio habitar comigo e não a reconheci. O destino me tinha, nesses últimos tempos, concedido a alegria de uma mulher que era a mais doce, a mais submissa e a mais devotada das criaturas e sempre pronta! e sem entusiasmo! ‘Eu quero isto, pois que lhe agrada’. Essa era sua resposta habitual. Se você desse cajadadas nesta parede ou neste sofá, conseguiria mais suspiros do que do peito de minha amante, nos movimentos mais esforçados do amor. Depois de um ano de vida em comum, ela me confessou que jamais sentira prazer. Eu me aborreci desse duelo desigual, e essa mulher incomparável casou-se. Tive, mais tarde, a fantasia de revê-la e ela me disse mostrando-me seus belos seis filhos: ‘Pois é, querido amigo! a esposa está, ainda, tão virgem quanto o era sua amante’, Nada mudara naquela pessoa. Às vezes arrependo-me de não ter casado com ela.
Os outros se puseram a rir, e um terceiro disse, por sua vez:
“Senhores, eu conheci alegrias que, talvez, vocês tenham negligenciado. Quero falar do cômico no amor, e de um cômico que não exclui a admiração. Admirei minha última amante mais do que vocês puderam, creio eu, amar ou odiar as suas. E todos a admiravam tanto quanto eu. Quando entrávamos em um restaurante, ao fim de alguns minutos, todos se esqueciam de comer para contemplá-la. Os próprios garçons e a moça do balcão sentiam esse êxtase contagioso a ponto de esquecer seus deveres, Numa palavra, vivi algum tempo junto a esse fenômeno vivo. Ela comia, mastigava, mordia, devorava, engolia, mas com o ar mais leve e despreocupado do mundo. Ela manteve-me, assim, em êxtase um longo tempo. Tinha um modo doce, sonhador, inglês e romântico de dizer:
‘Estou com fome!’ E repetia essas palavras dia e noite mostrando os dentes mais lindos do mundo, com que vocês poderiam comover-se e divertir-se ao mesmo tempo. Poderia ter feito minha fortuna mostrando-a nas feiras como o monstro polifágico. Eu a nutria bem; e entretanto ela me deixou..”
“Por um fornecedor de víveres, sem dúvida?”
“Algo parecido, uma espécie de empregado na intendência que, por um golpe de mágica conhecido somente dele, forneceu, talvez, a essa pobre criança, a ração de vários soldados. É, pelo menos, o que suponho.”
“Eu, disse o quarto, suportei sofrimentos atrozes, pelo oposto do que se reprova, em geral, à fêmea egoísta. Eu os vejo inoportunos, afortunados mortais, a se queixarem das imperfeições de suas amantes!”
Isso foi dito, num tom sério, por um homem de aspecto calmo e repousado, com a fisionomia quase clerical, infelizmente iluminada por olhos de um cinza claro, que parecem dizer: “Eu quero!” ou: “É preciso” ou então: “Nunca perdôo!”
Se, nervosos como eu os conheço: você, G..., covarde e leviano como você é, vocês dois, K... eJ..., se vocês tivessem se juntado a uma certa mulher de meu conhecimento, ou vocês teriam fugido ou estariam mortos. Eu sobrevivi, como vocês vêem. Imaginem uma pessoa incapaz de cometer um erro de sentimento ou de cálculo; imaginem uma serenidade deplorável de caráter; um devotamento sem comédia e sem ênfase, uma doçura sem fraqueza; uma energia sem violência. A história de meu amor parece uma interminável, viagem sobre uma superfície pura e polida como um espelho, vertiginosamente monótona, que refletiria todos os meus sentimentos e meus gestos com a exatidão irônica de minha própria consciência, de sorte que eu não podia permitir-me um gesto ou um sentimento insensato sem perceber, imediatamente, a censura muda de meu inseparável espectro. O amor me parecia uma tutela. Quantas bobagens ela me impediu de fazer e que eu me arrependo de não haver cometido.’ Quantas dívidas paguei, malgrado meu Ela me privava de todos os benefícios que eu pudesse tirar de meus caprichos. Para cúmulo do horror, ela não exigia reconhecimento, passado o perigo. Quantas vezes me sustive de saltar-lhe ao pescoço gritando: “Seja imperfeita, miserável! a fim de que eu possa te amar sem inquietação e sem cólera.” Durante muitos anos eu a admirei, com o coração cheio de ódio. Enfim, não sou eu que estou morto.”
“Ah! disseram os outros, ela então está morta?”
“Sim, isso não podia continuar assim. O amor tornou-se, para mim, um pesadelo opressivo. Vencer ou morrer, como diz a política, tal era a alternativa que o destino me impunha Um dia, em um bosque... à beira de um charco... após um melanc6lico passeio onde seus olhos, os olhos dela, refletiam a doçura do céu e onde meu coração, meu próprio coração, estava crispado como o inferno...
“O quê?”
“Como?”
“O que você quer dizer?”
“Era inevitável, Eu tenho o sentimento de eqüidade para bater, ultrajar, despedir um servidor irrepreensível. Mas era preciso concordar esse sentimento com o horror que esse ser me inspirava; livrar-me desse ser sem lhe faltar como respeito. Que queriam vocês que eu fizesse com ela, pois ela era perfeita?”
Os três outros companheiros olharam para ele com um olhar vago e ligeiramente estupefato, como fingindo não compreender e como confessando, implicitamente, que eles não se sentiam, quanto a eles, capazes de uma ação tão rigorosa, embora suficientemente explicável.
Em seguida, mandaram vir novas garrafas para matar o tempo, que tem a vida dura, e acelerar a vida, que corre tão lentamente.

O Porto

XLI

O PORTO

Um porto é um lugar charmoso para uma alma fatigada das lutas da vida. A amplitude do céu, a arquitetura móvel das nuvens, as colorações mutantes do mar, a cintilação dos faróis são um prisma maravilhosamente próprio para agradar aos olhos sem jamais os cansar. As formas projetadas dos navios, de aparelhagens complicadas, às quais as ondas imprimem oscilações harmoniosas, servem para manter na alma um gosto pelo ritmo e pela beleza. Além disso, sobretudo, há uma espécie de prazer misterioso e aristocrático para todo aquele que não tem mais nem curiosidade, nem ambição, em contemplar, deitado em um terraço ou de cotovelos na balaustrada, todos esses movimentos dos que partem e dos que voltam, dos que ainda tem a força de querer, o desejo de viajar ou de enriquecer.

O Espelho

XL

O ESPELHO.

Um homem pavoroso entra e mira-se no espelho:
“Por que você se olha no espelho já que não se pode ver senão com desgosto?”
O homem pavoroso respondeu: “Meu senhor, segundo os imortais princípios de 89, todos os homens são iguais em seus direitos; portanto possuo o direito de me contemplar, com prazer ou desgosto, isso não diz respeito senão à minha consciência.”
Em nome do bom senso, eu tinha, sem dúvida, razão; mas do ponto de vista da lei, ele não estava errado.

Um Cavalo de Raça

XXXIX

UM CAVALO DE RAÇA

Ela é bem feia. Portanto deliciosa.
O Tempo e o Amor marcaram-na com suas garras e ensinaram-lhe, cruelmente, o que cada minuto, cada beijo tiram de juventude e de frescor.
Ela é, verdadeiramente, feia; ela é formiga, aranha, se você quiser, um esqueleto mesmo, mas também é bebida, magistério, feitiçaria Em suma ela é deliciosa.
O Tempo não pôde romper a harmonia crepitante de seu andar, nem a elegância indestrutível de sua estrutura. O Amor não alterou a suavidade do seu hálito de criança; e o Tempo nada roubou de sua abundante cabeleira de onde exala, em perfumes selvagens, toda a vitalidade endiabrada do Meio-Dia francês: Nimes, Aix, Aries, Avignon, Narbonne, Toulouse, cidades benditas pelo sol, amorosas e charmosas!
O Tempo e o Amor morderam-na em vão, com vontade; eles em nada diminuíram o vago charme, mas eterno, de seu peito juvenil.
Talvez usada, mas não fatigada e sempre heróica, ela faz lembrar esses cavalos de grandes raças, que o olho do verdadeiro perito amador reconhece, mesmo atrelados a uma carroça de aluguel ou a um veículo de carga.
E depois ela é tão doce, tão ardente. Ela ama como se ama no outono; dir-se-ia que a aproximação do inverno acendeu em seu coração um fogo novo, e o servilismo de sua ternura nada tem de fatigante.

Qual É a Verdadeira?

XXXVIII

QUAL É A VERDADEIRA?

Conheci uma certa Benedicta que enchia a atmosfera de ideal, cujos olhos difundiam o desejo de grandeza, de beleza, de glória e de tudo o que fazia crer na imortalidade.
Mas essa moça miraculosa era bela demais para viver muito tempo, tanto que morreu alguns dias depois que eu a conheci, e fui eu mesmo que a enterrei, um dia em que a primavera agitava seu incensório até dentro dos cemitérios. Fui eu quem a enterrou, bem fechada em um caixão de madeira perfumada e incorruptível como os cofres das Índias.
E como meus olhos estavam fixados no lugar onde estava escondido o meu tesouro, vi, subitamente, uma pessoa pequena que singularmente parecia-se com a defunta e que calcava com os pés a terra fresca, com uma violência histérica e bizarra, dizendo às gargalhadas: “Sou eu a verdadeira Benedicta! Sou eu, uma famosa canalha! E para punição de tua loucura e de tua cegueira, hás de me amar tal como sou!”
Mas eu, furioso, respondi: “Não, não, não!” E para acentuar mais minha repulsa, calquei tão violentamente a terra que minha perna afundou até o joelho na sepultura recente e, como um lobo preso em uma armadilha, permaneço ligado, para sempre talvez, à cova do ideal.

Os Favores da Lua

XXXVII

OS FAVORES DA LUA

A Lua, que é o próprio capricho, olhou através da janela enquanto dormias em teu berço e se disse: “Essa criança me agrada.”
E desceu suavemente sua escada de nuvens e passou, sem qualquer barulho, através da vidraça. Depois, esticou-se sobre ti com a macia ternura de uma mãe e depositou suas cores sobre a tua face. Tuas pupilas permaneceram verdes e tuas faces extremamente pálidas. Foi contemplando essa visitante que teus olhos cresceram de modo bizarro; e ela tão ternamente te apertou a garganta para que tu guardasses, para sempre, a vontade de chorar.
Entretanto, na expansão de sua alegria, a Lua encheu o quarto com uma atmosfera fosfórica, como um veneno luminoso. E toda essa luz vivente pensava e dizia: “Sofrerás eternamente a influência de meu beijo: serás bela, à minha maneira. Amarás o que eu amo e os que me amam: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde não estarás, o amante que não conheces as flores monstruosas; os perfumes que fazem delirar; 0s gatos que desfalecem sobre os pianos e gemem como mulheres, com uma voz rouca e doce!”
“E serás amada por meus amantes, cortejada pelos meus cortesãos. Serás a rainha dos homens de olhos verdes, cujas gargantas também apertei em minhas carícias noturnas; daqueles que amam o mar, o mar imenso, tumultuado e verde, a água informe e multiforme, o lugar onde não estão, a mulher que não conhecem, as flores sinistras que parecem incensórios de uma religião desconhecida, os perfumes que perturbam a vontade e os animais selvagens e voluptuosos que são emblemas de sua loucura.”
E é por isso, maldita querida criança mimada que estou, agora deitado a teus pés te procurando em toda a tua pessoa o reflexo da terrível divindade, da fatídica madrinha, da nutriz envenenadora de todos os lunáticos.