O Bobo da Corte e a Vênus

VII

O BOBO DA CORTE  E A VÊNUS

Que dia admirável! O vasto parque se desvanece sob o olhar brilhante do sol, como a juventude sob o domínio do Amor.
O êxtase universal das coisas não se exprime por qualquer ruído; até as próprias águas estão coma que adormecidas. Bem diferentes das festas humanas, aqui há uma orgia silenciosa.
Dir-se-ia que uma luz sempre crescente faz cada vez mais cintilar os objetos; que as flores excitadas incendeiam-se do desejo de se rivalizarem com o azul do céu, pela energia de suas cores e que o calor tornando visíveis os perfumes os faz subir ao astro como fumaças.
Entretanto, nessa alegria universal, percebo um ser aflito.
Aos pés de uma Vênus colossal, um desses loucos artificiais, um desses bufões voluntários, encarregados de fazerem rir os reis quando o Remorso ou a Tédio os obcecam, fantasiado com um costume brilhante e ridículo, trazendo urna cabeleira de chifres e guizos, encolhido contra a pedestal, eleva seus olhos lacrimejantes para a Deusa imortal.
E seus olhos dizem: “Eu sou o último e o mais solitário dos homens, privado de amor, de amizade e bem inferior nisso ao mais imperfeito dos animais. Entretanto, sou feito, eu também, para compreender e sentir a imortal Beleza. Ah! Deusa! tenha piedade de minha tristeza e de meu delírio!”
Mas a implacável Vênus olha ao longe para não sei quê, com seus olhos de mármore.

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