O Estrangeiro

I

O ESTRANGEIRO

— A quem mais amas tu, homem enigmático, dizei: teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?
— Eu não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
— Teus amigos?
— Você se serve de uma palavra cujo sentido me é, até hoje, desconhecido.
— Tua pátria?
— Ignoro em qual latitude ela esteja situada.
— A beleza?
— Eu a amaria de bom grado, deusa e imortal.
— O ouro?
— Eu o detesto como vocês detestam Deus.
— Quem é então que tu amas, extraordinário estrangeiro?
— Eu amo as nuvens.., as nuvens que passam lá longe...
as maravilhosas nuvens!

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  1. Extrai de meu livro Pequenos Poemas em Prosa uma tradução feita por Aurélio Buarque de Holanda.

    O ESTRANGEIRO

    — A quem mais amas tu, responde homem enigmático:
    teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?
    — Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
    — Tens amigos?
    — Eis uma palavra cujo sentido, para mim, até hoje permanece obscuro.
    — Tua pátria?
    — Ignoro em que latitude está situada.
    — A beleza?
    — Gostaria de amá-la deusa e imortal.
    — O ouro?
    — Detesto-o como detestais a Deus.
    — Então a que é que tu amas, excêntrico estrangeiro?
    — Amo as nuvens... as nuvens que passam... longe... lá muito longe...
    as maravilhosas nuvens!

    Charles Baudelaire
    Tradução: Aurélio Buarque de Holanda

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