Um Hemisfério em uma Cabeleira

XVII

UM HEMISFÉRIO EM UMA CABELEIRA

Deixa-me aspirar durante muito tempo, muito tempo, o odor de teus cabelos e mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem com sede na água de uma fonte, e agitá-los com minha mão como um lenço perfumado para dispersar as lembranças no ar.
Se pudesses saber tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que percebo em teus cabelos! Minha alma viaja sobre esse perfume como a alma de outros homens sobre a música.
Teus cabelos contêm todo um sonho, cheio de velas e mastros; eles contêm os grandes mares para onde as monções me levam, os climas charmosos onde o espaço é mais azul e mais profundo; onde a atmosfera é perfumada pelas frutas, pelas folhas e pela pele humana.
No oceano de tua cabeleira entrevejo um porto formigando de cantos melancólicos, de homens vigorosos de todas as nações e de navios de todas as formas recortando suas finas e melancólicas arquiteturas sob um céu imenso onde se espreguiça o eterno calor.
Nas carícias de tua cabeleira reencontro langores das longas horas passadas sobre um divã, no quarto de um belo navio, embalado pelo imperceptível balanço das águas do porto, entre vasos de flores e bebidas refrescantes.
No ardente ninho de tua cabeleira respiro o odor de tabaco misturado ao ópio e ao açúcar; na noite de tua cabeleira vejo o infinito resplendor do azul tropical; sobre as margens cheias de penugem de tua cabeleira embriago-me com os odores de alcatrão, de almíscar e de óleo de coco.
Deixa-me morder, demoradamente, tuas tranças pesadas e negras. Quando mordisco teus cabelos elásticos e rebeldes parece-me que estou comendo lembranças.

4 comentários:

  1. Este é um dos meus preferidos e o primeiro poema de Baudelaire que lí.
    Estava numa oficina de criação literária apresentando um poema em prosa. Quando terminei o professor saltou e disse:
    -Se inspirou no Baudelaire? É assustadoramente parecido!
    E então fui apresentado ao poeta com este poema.

    Baudelaire me inspirava mesmo antes de conhecê-lo.

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    1. Não fosse o que chamarei de último parágrafo, seria uma prosa na melhor das hipóteses medíocre, que ver no objeto de desejo e afeto algo que não ele próprio é tropo literário desde há muito.

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  2. Engraçado !
    Eu tenho a sensação de que algo está preso na minha garganta, no meu peito... e enquanto vou lendo é como se uma correnteza destinasse a cada parte do meu corpo aquilo que lhe cabe: à boca, o silencio; aos olhos, a escuridão,etc...
    e assim passa, tudo passa depois desta leitura.

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