Um Cavalo de Raça

XXXIX

UM CAVALO DE RAÇA

Ela é bem feia. Portanto deliciosa.
O Tempo e o Amor marcaram-na com suas garras e ensinaram-lhe, cruelmente, o que cada minuto, cada beijo tiram de juventude e de frescor.
Ela é, verdadeiramente, feia; ela é formiga, aranha, se você quiser, um esqueleto mesmo, mas também é bebida, magistério, feitiçaria Em suma ela é deliciosa.
O Tempo não pôde romper a harmonia crepitante de seu andar, nem a elegância indestrutível de sua estrutura. O Amor não alterou a suavidade do seu hálito de criança; e o Tempo nada roubou de sua abundante cabeleira de onde exala, em perfumes selvagens, toda a vitalidade endiabrada do Meio-Dia francês: Nimes, Aix, Aries, Avignon, Narbonne, Toulouse, cidades benditas pelo sol, amorosas e charmosas!
O Tempo e o Amor morderam-na em vão, com vontade; eles em nada diminuíram o vago charme, mas eterno, de seu peito juvenil.
Talvez usada, mas não fatigada e sempre heróica, ela faz lembrar esses cavalos de grandes raças, que o olho do verdadeiro perito amador reconhece, mesmo atrelados a uma carroça de aluguel ou a um veículo de carga.
E depois ela é tão doce, tão ardente. Ela ama como se ama no outono; dir-se-ia que a aproximação do inverno acendeu em seu coração um fogo novo, e o servilismo de sua ternura nada tem de fatigante.

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